Aulas&Dicas

Aulas&Dicas


Estas aulas sobre o acordo ortográfico entre os países lusófonos são suficientemente abrangentes para que possam oferecer uma visão geral e base para a compreensão de todos os aspectos da "reforma". Bons estudos!

Acordo Ortográfico - ABERTURA

Aqui, algumas explicações sobre as razões do acordo, as demoras na sua aprovação e implementação, sua importância.

video


Acordo ortográfico - MÓDULO 1
Quem assina o acordo? Quais os prazos para a vigência e quais as justificativas? Os debates, a ratificação, os "senões"e a estratégia brasileira.

video


Acordo ortográfico - MÓDULO 2
Saramago e a importância da ortografia. Nosso prêmio Nobel só pede que o deixem continuar sendo o que sempre foi, mas deseja muitos e bons livros para os escritores que estiverem sob as novas determinações legais.

video

Acordo ortográfico - MÓDULO 3 - Signos Linguísticos I
Começar do começo é começar pelo signo linguístico, o significante e o significado, as diferenças entre as letras e os fonemas: a palavra e a sua importância no mundo. Vogais. Sua constituição e os mitos.


video



Acordo ortográfico - MÓDULO 4 - Signos Linguísticos II
As consoantes como ruídos, a constituição da sílaba e a classificação das palavras quanto ao número de sílabas. A tonicidade, a classificação das palavras quanto à posição da sílaba tônica. Os ditongos, os tritongos e os hiatos. Encontros consonantais e dígrafos. As aulas avançam passo a passo, vagarosamente, para que você possa apreender cada detalhe e memorizar esse conteúdo para sempre.



video





________________________________________________________________________


VIAGENS NA MINHA TERRA
ALMEIDA GARRETT

Livro de viagens? Romance? Diário? Reportagem? Qual a classificação adequada para uma obra tão vasta como esse "avanço no tempo" cometido por Almeida Garrett? Será mesmo que tudo deva ser classificável quando se fala em literatura? De qualquer maneira, esta é uma das mais instigantes obras do rol de livros obrigatórios nos exames de seleção da Fuvest e da Unicamp.

VIAGENS NA MINHA TERRA - aqui está um trabalho muito interessante sobre esta obra desafiadora de Garrett. Vale muito a pena.






_________________________________________________________________________

A CIDADE E AS SERRAS
PERÍODO HISTÓRICO

Meados do século XIX. Em Portugal, uma grande crise. Esgotadas as possibilidades de expansão da economia portuguesa e com uma produção industrial quase nula, o país destaca-se da Europa, que vive profundas transformações, em decorrência do progresso, e pára. Vive o atraso, mas importa modelos de comportamento, mantendo estilo e modelo europeus na política, nas instituições e nas idéias.

“Nos teatros - só comédias francesas; nos homens – só livros franceses; nas lojas – só vestidos franceses; nos hotéis – só comidas francesas..." Eça de Queirós

Com a instituição da Monarquia Parlamentar, iniciou-se o período da Regeneração. Nele, partidos mais ou menos conservadores se alternaram no governo, entre 1851 e 1910.

Ao capitular diante do Ultimatum(1.1.) inglês, porém, a monarquia deu, em 1890, o passo extremo para a perda do poder, em 1910, com a ascensão do Partido Republicano.

II
Em 1865, uma polêmica entre jovens universitários de Coimbra, revolucionários como Antero de Quental e Teófilo Braga, e os escritores românticos, liderados por Antonio Feliciano de Castilho, chama a atenção do mundo literário e intelectual de Portugal. É a Questão Coimbrã, como ficou conhecida, também Questão do Bom Senso e do Bom Gosto.
A polêmica foi iniciada por Castilho em um posfácio que escreveu para “Poemas da Mocidade”, do romântico Pinheiro Chagas. O poeta critica os jovens universitários, que lutavam por um novo estilo para a arte e a exigiam compromissada e participante. Para ele, faltava-lhes “bom senso e bom gosto”.
Em sua dura resposta, Antero de Quental afirma que os jovens poetas são atacados porque ousaram prosseguir sem o visto da chancelaria dos grão-mestres oficiais, sem pedirem licença aos mestres, mas consultando só o seu trabalho e a sua consciência, sem respeito aos papas e pontífices.

III
A segunda metade do século XIX é marcada pela supremacia do cientificismo. A industrialização avança, ao tempo em que a hegemonia social da burguesia é criticada. A arte dessa época carrega as convicções científicas então dominantes: busca da objetividade, crença na razão, preocupações sócio-políticas. Se o escritor romântico descobriu a história (todas as formas de conhecimento, inclusive literárias, seriam produto de uma evolução histórica), o escritor realista descobriu o cotidiano. Os grandes heróis históricos do romantismo são substituídos pelo herói ou anti-herói do cotidiano – homens comuns, com problemas comuns, semelhantes aos vividos pelo público-leitor do novo período histórico. O realismo(3) é, strictu sensu, a tendência literária da segunda metade do século XIX, comprometida com os métodos experimentais do positivismo, isto é, o realismo naturalista.
Resumo
SÉCULO XIX
industrialização
expansão industrial – inchaço das grandes cidades
êxodo rural
agrava-se a péssima distribuição de renda
burguesia enriquecida
progresso em toda a Europa
Paris destaca-se (centro de moda e de difusão cultural)
Portugal permanece à margem da Europa moderna


O AUTOR

No último ano do século XIX, no dia 16 de agosto de 1900, Eça de Queirós falecia em Paris.
José Maria de Eça de Queirós, nascido em Póvoa de Varzim, Portugal, em 25 de novembro de 1845, estava perto de completar 55 anos.
Eça foi concebido antes do casamento dos pais, José Maria d’Almeida Teixeira, Juiz de Direito, e Carolina Augusta Pereira de Eça, o que era inaceitável para a sociedade burguesa do Portugal da época. Nunca viveu com eles. Batizado às escondidas – e oficialmente reconhecido apenas quando já contava quarenta anos - o menino foi criado pelos avôs paternos.
Com a morte deles, o pai o envia, aos dez anos, em 1855, para a cidade do Porto(4), bem próxima a Póvoa, como aluno interno no Colégio da Lapa. Foi lá que fez seus primeiros estudos e conheceu Ramalho Ortigão, colega de escola, então com dezenove anos. Ortigão lhe ensinará francês e exercerá forte influência sobre ele, desenvolvendo no amigo mais novo o amor aos livros.
Em 1861, com apenas dezesseis anos, matriculou-se na Universidade de Coimbra, onde estudavam duas das personalidades mais marcantes do século XIX português: Teófilo Braga e Antero de Quental, formando-se em Direito, no ano de 1866, aos vinte e um anos de idade.
Eça de Queirós não se envolveu na grande polêmica travada entre os estudantes realistas da Universidade de Coimbra, liderados por Antero de Quental, e os românticos, liderados por Antonio Feliciano de Castilho: a Questão Coimbrã.

Foi nesse mesmo ano que iniciou suas atividades literárias no jornal “A Gazeta de Portugal”, trabalhos que mais tarde, e postumamente, vão ser publicados em “Prosas Bárbaras”, conjunto de textos que se caracteriza pelo estilo audacioso e pelo pensamento multifacetado. Essas páginas não indicam, ainda, o escritorrealista em que Eça de Queirós se tornaria, mas são reveladoras da multiplicidade de influências(5) que recebeu das leituras que fez.

Eça de Queirós

1845 – 1900
1866 - Forma-se em Direito pela Universidade de Coimbra
1868 – Participa do “Cenáculo”, um espaço de debates e tertúlia criado pelos vitoriosos da Questão Coimbrã
1871 - envolve-se nas “Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense(6)
1872 – aprovado em concurso para a carreira diplomática; nomeado cônsul nas Antilhas Espanholas (Havana)
1875 – inaugura o realismo-naturalismo em Portugal com “O Crime do Padre Amaro”
1878 – “O Primo Basílio”
Estabelece-se, então, em Lisboa, como auxiliar da banca de advocacia de um amigo da família. Em 1867, dirige um jornal político do Alentejo, o “Distrito de Évora”. Regressa a Lisboa, em 1868, abre escritório de advocacia e passa a participar do “Cenáculo”, uma espécie de tertúlia(7), reuniões de um grupo de intelectuais boêmios liderados por Antero de Quental(8).
Em 1869, parte para o Egito em companhia do Conde de Resende, para fazer a reportagem da inauguração do Canal de Suez. Aproveita-se dessa oportunidade para visitar a Palestina e são dessa viagem os dados e a inspiração para depois escrever “A Relíquia” e “O Egito”. Em Portugal, um ano após, é nomeado administrador do Conselho de Leiria, em cujo ambiente se inspira para a composição do romance “O Crime do Padre Amaro”. Nesse mesmo ano escreve, em colaboração com Ramalho Ortigão, “O Mistério da Estrada de Sintra”, fundando também “As Farpas”, uma revista de crítica social.
Em 1871, envolve-se nas “Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense”, ao lado de Antero e Teófilo Braga, quando se empenha na denúncia do atraso político, moral e científico das nações ibéricas.


O REALISMO COMO EXPRESSÃO DA ARTE

Literatura = Arte
Expressão da Arte = Realismo
requisito básico: a verdade
método: a análise
objetivo obrigatório: a melhora da sociedade.
papel essencial da arte: instrumento das causas sociais

Em 12 de junho, dentro da programação do Cassino, proferiu a sua conferência intitulada “O Realismo como Expressão da Arte”. Nela, Eça renega o romance histórico (Herculano(9)) e a prosa fantástica (Castilho(10)), afirmando que o requisito básico da literatura moderna era a verdade, que o seu método deveria ser a análise e que o seu objetivo seria obrigatoriamente a melhora da sociedade. À Arte caberia, portanto, um papel essencial: transformar-se em um instrumento das causas sociais, veículo da crítica social e da denúncia dos costumes. Eça de Queirós torna-se, assim, um dos representantes da já mítica Geração de 70, iconoclasta e modernizadora. A par disso, Eça também freqüentou grupo que cultivava o Parnasianismo, então moda na França(11).
Tendo sido aprovado em concurso para a carreira diplomática, em 1872 é nomeado cônsul em Havana (antigas Antilhas Espanholas). No ano seguinte, vai para os Estados Unidos, em missão oficial. É transferido, em 1874, para o consulado de Newcastle-on-Tyne, na Inglaterra, onde escreve “O Primo Basílio”, e, no mesmo ano em que se dá a publicação do romance, em 1878, é transferido para Bristol.
Eça escreveu durante dezesseis anos seguidos, a partir de 1880, na “Gazeta de Notícias”. Em 1885, liga-se a uma família aristocrática, casando-se no Porto com D. Maria Emília de Castro Pamplona, irmã do Conde de Resende. Em 1888, é nomeado cônsul e transferido para Paris, como era seu desejo. Morreu lá, cerca de dez anos depois.

OBRAS DO AUTOR

Romance - 1871 – O mistério da estrada de Sintra (em colaboração com Ramalho Ortigão); 1876 – O crime do padre Amaro; 1878 – O primo Basílio; 1879 – O mandarim; 1887 – A relíquia; 1888 – Os maias; 1900 – A ilustre casa de Ramires; 1891 – A correspondência de Fradique Mendes; 1901 – A cidade e as serras; 1925 – A capital; 1925 – O conde d’Abranhos; 1925 – Alves e Cia.; 1980 – A tragédia da rua das Flores; Conto - 1902 – Contos; Jornalismo e Hagiografia - 1905 – Prosas bárbaras; 1890 – Uma campanha alegre; 1905 – Cartas de Inglaterra; 1905 – Ecos de Paris; 1907 – Cartas familiares e bilhetes de Paris; 1909 – Notas contemporâneas; 1912 – Últimas Páginas; 1926 – O Egito; 1944 – Crônicas de Londres; 1944 – Cartas de Lisboa; Correspondência - 1925 – Correspondência; 1945 – Cartas de Eça de Queirós; 1948 – Eça de Queirós entre os seus – Cartas íntimas


A CIDADE E AS SERRAS

Publicação póstuma, em 1901.
Pertencente à fase madura da obra de Eça de Queirós, é também sua última obra, faltando-lhe ainda a execução da revisão meticulosa que sempre empreendia e que acabou sendo feita por amigos para publicação póstuma. Trata-se de enredo extremamente atual, abordando aspectos de consumismo desenfreado, uma crítica divertida à burguesia, ao capitalismo e aos excessos da sociedade pós revolução industrial.
  • Narrador: José Fernandes
  • Foco Narrativo
  • Primeira pessoa
  • Narrador – personagem secundário (deuteragonista)
  • Protagonista – Jacinto de Tormes
  • Visão “de fora”  - Narrador “testemunha” , embora toda a narrativa que compreende a vida do protagonista Jacinto antes de estabelecer conhecimento com o narrador seja feita em flashback
  •  Tempo
  • De 1834 – (partida do avô de Jacinto para a França) a 1893 (volta definitiva de Jacinto para Portugal). 
Narração Linear

– tempo cronológico -
Espaço
urbano: Paris
rural: Tormes
Romance realista, onde desaparece a proposta da juventude de Eça, de uma revolução socialista. Jacinto, personagem central, oferece aos trabalhadores de suas terras uma vida digna, mas os meios de produção permanecem como sua propriedade.


Enredo

Jacinto é um jovem imensamente rico e tem essa riqueza jorrando permanentemente de suas terras em Portugal, pátria de seus ancestrais, que ele não conhece principalmente por sua aversão a tudo que não seja completamente urbano. Assim, para ele, somente Paris existe. Até o dia em que o destino o leva ao encontro de suas origens. Forçado a viajar para suas propriedades, ele entra em contato com a vida simples e seus costumes, os sabores honestos da comida da fazenda, o clima saudável, a ausência de subterfúgios sociais. E resolve abandonar (e um grande amor, é claro, surge em sua vida para ajudar a tomar essa decisão) de vez a vida artificial de Paris para mergulhar nas alegrias naturais de Portugal.

É um "romance de tese", bem dentro dos princípios do hegelianismo (a realidade como um movimento incessante e contraditório, condensável em tese, antítese e síntese).
No final do romance, apesar de encontrar nas serras de Portugal o lugar ideal para viver, Jacinto pretende para lá levar o melhor da cidade (síntese).





MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS

O autor
Formado em Medicina, Manoel Antonio de Almeida nunca exerceu sua profissão, dedicando-se ao jornalismo. Era redator do Correio Mercantil quando publicou Memórias de um Sargento de Milícias, como folhetim. Foi também professor, lecionando no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, além de diretor da Tipografia Nacional. Morreu no naufrágio do navio Hermes, aos 30 anos de idade, na costa fluminense.
A obra
Enredo
Leonardo Pataca encontra Maria da Hortaliça no navio em que ambos viajam demandando o Brasil.
Depois de tê-la cortejado com uma pisadela "valente" e ter recebido em troca um beliscão (que nos costumes da época equivaliam a cortejo e aceitação), envolvem-se em um tórrido relacionamento ainda no navio. Quando desembarcam no Rio, vão morar juntos e sete meses depois nasce Leonardo, o “herói” das Memórias. A partir daí, todo o livro é dedicado às peripécias do menino terrível, largado pelos pais e criado pelo padrinho, que lhe oferece um amor incondicional e que pretende fazer dele um padre para com isso, uma espécie de troca ou toma-lá-da-cá com Deus, redimir-se de suas faltas. Capítulo a capítulo o enredo conta as aventuras de Leonardo, que ao final, já Sargento, graças à influência de Maria Regalada junto ao Major Vidigal, protagonizará um final feliz, casando-se com Luisinha,.
Estrutura: são capítulos autônomos, muito curtos, histórias simples e completas com começo, meio e fim, e o anti-herói Leonardo é, de resto, um fio condutor para a reportagem que o jornalista Manoel A. de Almeida faz do Rio de Janeiro à época de D. João VI, ocasião em que nasce o sentimento de brasilidade que, afinal, desembocaria na Independência de 22.  
A linguagem é direta, possui construções gramaticais que contrariam a norma culta, reproduzindo a fala do povo e, formalmente, aparenta-se às novelas de costumes e ao teatro romântico de Martins Pena.
Ao ler as Memórias, o leitor entra no universo daquela que vários autores consideram a primeira obra da literatura verdadeiramente brasileira, aquela em que o brasileiro comum entra no romance pela porta da frente, como protagonista.








IRACEMA - JOSÉ DE ALENCAR

A OBRA
Enredo
Numa ambiente lendário e exótico, desenrola-se a história triste de Iracema e Martim. Ele, personagem histórico (personagem histórico real - Martim Soares Moreno) e ela uma jovem e bela índia tabajara, filha de Araquém, pajé da tribo. Martim saíra à caça com seu amigo Poti, guerreiro pitiguara (personagem histórico real - Antonio Felipe Camarão), e perdera-se do companheiro, indo ter aos campos dos inimigos tabajaras onde encontra Iracema, que o acolhe na cabana de Araquém, enquanto aguarda seu irmão, Caubi, para reconduzir a salvo o guerreiro branco às terras pitiguaras. Iracema, porém, apaixona-se pelo europeu e trai o juramento da Jurema, bebida sagrada, que mantém com Tupã, seu deus. Acompanha o esposo, deixando na sua tribo um ambiente de revolta, acirrado pelos ciúmes de Irapuã, chefe tabajara.
Desencadeia-se a guerra da vingança, os tabajaras são derrotados; Iracema preenche-se de profundas tristezas ao ver os cadáveres dos guerreiros tabajaras. Depois, ao perceber que arrefece o amor de Martim, Iracema sofre ainda mais. Para tentar diminuir a saudade de Portugal, Martim ausenta-se cada vez mais longamente. Num dos seus regressos, encontra Iracema à morte, - exausta pelo esforço que fizera para amamentar Moacir, o "nascido da dor", em tupi. Após enterrar Iracema, Martim vai para a Europa, levando o filho. 
Características
- A heroína é idealizada; comparada à natureza brasileira, leva vantagem sobre ela (mais rápida, cabelos mais negros etc.). É a perfeição; Martim é o colonizador: desperta curiosidade e fascínio; traz o amor e a desgraça para Iracema (além de representar a destruição para as nações indígenas); a narração é em terceira pessoa, uma terceira pessoa que deixa, por vezes, entrever a primeira pessoa, um eu (narrador) apaixonado pela personagem;
A leitura desse romance indianista, estilo que adota o índio como herói nacional, permite uma visão perfeita desse primeiro tempo do romantismo brasileiro, a fase nacionalista, e leva o leitor a saborear uma nova linguagem, a língua brasileira do futuro, misto de português e tupi-guarani.
O autor
José de Alencar nasceu em 1829, no Ceará. Muda-se para o Rio ainda criança, e cursa Direito, em São Paulo. Transfere-se, em 1848, para a Faculdade de Direito de Olinda, em Pernambuco. Contrai tuberculose e volta a São Paulo, onde termina o curso. Advoga e escreve, publicando uma seção em que comenta assuntos variados do País. É autor romântico, representativo da primeira metade do Século XIX: nacionalismo, subjetividade, adjetivação abundante, ilusão, fantasia, gosto pelo maravilhoso, enfim, uma literatura a gosto da burguesia. Escreveu romances urbanos, regionalistas, indianistas e históricos.




DOM CASMURRO


Contexto histórico

A revolução industrial, o materialismo histórico (1848 - Manifesto do Partido Comunista) e o cientificismo dominante no século XIX compõem o quadro histórico em que Dom Casmurro(1899 -1900) foi concebido. A industrialização avança, provocando o inchaço das grandes cidades em todo o mundo, graças ao êxodo rural. A má distribuição de renda agrava-se ainda mais, face a uma burguesia enriquecida. Novas correntes científicas e filosóficas parecem deixar bastante claro que há necessidade de novos rumos para a sociedade.
D. Casmurro - Romance realista

Na literatura, o romance social, psicológico e de tese, participa do modo de ser renovado da obra de arte, que tem a verdade como requisito básico e como método, a análise. Seu objetivo obrigatório é a melhora da sociedade, constituindo-se em instrumento das causas sociais, agora seu papel essencial.

O autor: Joaquim Maria Machado de Assis

 
Poeta, romancista, novelista, contista, cronista, dramaturgo, ensaísta e crítico, nasceu (21/06/1839 ) e morreu (29/09/1908) no Rio de Janeiro. Sua obra é escrita na norma culta da língua portuguesa, com raízes nas tradições da cultura européia.
Filho de um pintor de casas mestiço de negro e português, adoentado, epiléptico, gago e de figura trivial, encontrou emprego como aprendiz de tipógrafo aos 17 anos de idade, começando a escrever durante seu tempo livre. Autodidata. Não frequentou escola, foi a leitura que o fez.
Sua obra divide-se em duas fases, uma romântica e outra realista, quando efetivamente se destaca e desenvolve seu inconfundível estilo desiludido, sarcástico e amargo. Tem total domínio da linguagem, dizendo com sutileza o que vários de seus contemporâneos não se atreveram a registrar. O estilo é preciso, reticente.
O humor pessimista e a complexidade do pensamento, além da desconfiança na razão (no seu sentido cartesiano e iluminista), fazem com que se afaste de seus contemporâneos e ultrapasse o modelo literário nacional. Ignorou questões sociais como a independência do Brasil e a abolição da escravatura.
A galeria de tipos e personagens que criou impressiona por sua complexidade e profundidade psicológica.

OBRAS:
Romances
Ressurreição - 1872
 A mão e a luva - 1874 
Helena - 1876 
Iaiá Garcia - 1878 
Memórias Póstumas de Brás Cubas - 1881 
Quincas Borba - 1891 
Dom Casmurro - 1899 
Esaú e Jacó - 1904 
Memorial de Aires - 1908 

Poesia 
Crisálidas - 1864

Falenas - 1870
Americanas - 1875
Ocidentais
Poesias completas

Contos
A Carteira 
Miss Dollar 
O Alienista 
Noite de Almirante
O Homem Célebre
Conto da Escola 
Uns Braços 
A Cartomante 
O Enfermeiro
Trio em Lá Menor
Missa do Galo 

Teatro
Hoje avental, amanhã luva - 1860 
Desencantos - 1861 
O caminho da porta, 1863 
Quase ministro - 1864
Os deuses de casaca - 1866 
Tu, só tu, puro amor - 1880 
Lição de botânica - 1906 


Estes textos, ao lado de suas histórias curtas ("Histórias da Meia Noite", "Papéis Avulsos", "Histórias Românticas", "Histórias sem Data", "Várias Histórias", "Páginas Recolhidas", "Relíquias de Casa Velha", "Contos Fluminenses", "Crônicas") fizeram sua fama como escritor.
"Crisálidas" (1864) e "Falenas" (1870) mostram nítida influência de Castro Alves, com alguma pregação dos ideais de liberdade. Em "Americanas" (1875) as influências alencarinas são claras. Em "Ocidentais" (1901) já mostra elementos do realismo: ironia, niilismo, recuperação do tempo perdido.


DOM CASMURRO
MACHADO DE ASSIS



Obra prima do romance realista psicológico. É considerada a mais importante realização de Machado de Assis e por muitos a mais importante obra da literatura brasileira.
Romance escrito em capítulos curtos, com títulos transparentes e precisos, numerados, conta a história de Bentinho, protagonista e narrador que, em flash back, resolve “ atar as duas pontas de sua vida” narrando, na velhice, as suas desventuras como apaixonado e afinal vítima das artimanhas de sua mulher, Capitu, que o traíra com seu melhor amigo, Escobar.
Amigos de infância, Bentinho e Capitu se apaixonam e lutam, com o apoio do agregado José Dias, para que ele não precise cumprir a promessa de sua mãe, D. Glória, que o destinou para padre: uma promessa para salvar-lhe a vida feita dentro dos costumes católicos da época. E é no seminário que ele conhece Ezequiel Escobar, a quem dedicará grande estima e amizade, trazendo-o para junto dos seus. O nascimento de Ezequiel coroa o ciúme de Bentinho, pois seu filho guarda incrível semelhança com o amigo. O casamento se desfaz e Capitu exila-se na Europa, junto com o filho, onde morre.
Discute-se bastante a possibilidade de Capitu jamais ter traído o marido; todos os indícios dessa traição seriam uma construção da mente doentia de Bentinho, desde sempre uma pessoa insegura, fragilizada pela criação e definitivamente paranoica.
APROXIMANDO O OLHAR
lDom Casmurro, de Machado de Assis, data de 1900, tem 148 capítulos curtosnumerados e com títulos igualmente curtos e precisos acerca do que vai ocorrer ou do que se vai falar. A narração é feita em flash back, alternando momentos de reflexão e reminiscências. O narrador, Bento ou Bentinho, fala na primeira pessoa e é também protagonista, personagem do romance, transitando permanentemente entre o presente e o passado.
AÇÃO, ESPAÇO E TEMPO
lação tem por espaço o Rio de Janeiro, durante o tempo do Segundo Império.
romance psicológico
lUm romance do tipo psicológico:
lNão há uma estrondosa ação a se desenrolar, passo a passo, com o suspense usado pelos escritores românticos, os fatos e os acontecimentos revelando-se e sucedendo-se pouco a pouco. O que importa, efetivamente, é o que se passa no mundo interior de cada personagem.
lFaz a análise dos caracteres psicológicos de todas as personæ – personagens - numa verdadeira dissecação da alma humana
O TÍTULO

lÉ o próprio protagonista quem explica o título do romance, quando se apresenta ao leitor como aquele que narrará os acontecimentos. É um título ‘vazio’, quase sem significação própria: não há a compreensão imediata do que ele significa, nem mesmo à luz de dicionários, fato sobre o que, aliás, o narrador alerta, logo na abertura. É necessária a palavra do narrador para retirar a ‘opacidade’ e explicar o Casmurro e o Dom.
O ENREDO E SEU CONTRÁRIO

lDom Casmurro conta a história de Bentinho, diminutivo de Bento, o narrador-protagonista do livro. Conforme expõe o excerto acima, desiludido da vida, desgostoso, fecha-se, torna-se recluso em si mesmo e passa a ser conhecido como Casmurro, o Dom servindo para atribuir-lhe ironicamente uns ares de fidalguia e orgulho, por pura vingança de seu detrator, um jovem escritor inconformado com o comportamento de Bentinho, que considerou desatencioso, quando lhe mostrou uns originais. Sua história é a seguinte:

lBentinho, jovem adolescente, vive com sua mãe, D. Glória, seus tios, Justina e Cosme, e José Dias, o agregado. Vive aos namoricos com Capitu, sua vizinha, embora tenha sido prometido à vida sacerdotal por sua mãe, em uma promessa por sua vida.
lMas Bentinho não está disposto a tornar-se padre. Juntamente com Capitu e a cumplicidade de José Dias, arma estratégias para escapar ao destino que sua mãe lhe impingira, embora com as melhores intenções, o que de fato consegue, casando-se com a amada de sempre. Em seu lugar, um escravo ordenou-se padre para que nem tudo na promessa de D. Glória fosse quebrado.
lBentinho estreita a sua amizade com um ex-colega de seminário, Escobar, que acaba se casando com Sancha, amiga de Capitu. Do casamento de Bentinho e Capitu nasce Ezequiel, que, aos poucos, Bentinho acha cada vez mais parecido com o amigo.
lEscobar morre afogado e, durante o velório, Bentinho julga perceber em Capitu uma estranha expressão ao olhar o cadáver. Os ciúmes aumentam e Bentinho conclui que Capitu traíra seu amor.
lEzequiel, de acordo com Bentinho, parece-se cada vez mais com Escobar. Por não ter mais dúvidas acerca da infidelidade da esposa, Bentinho planeja matá-la, e ao filho, para depois suicidar-se. O casal separa-se.
lCapitu vai para a Europa com Ezequiel e morre lá, anos depois. Ezequiel volta ao Brasil e visita o pai, que constata ainda mais acentuada a semelhança entre o filho e o amigo morto. Ezequiel volta ao estrangeiro, onde morre. Bentinho, agora Dom Casmurro, escreve suas memórias e reflexões.
Mas...
lhá um espelho para esse enredo, o seu contrário, a grande tragédia gerada pelo ciúme, a velha história shakespeareana que o próprio narrador se encarrega de semear na imaginação do leitor quando, insistentemente, revela-se ciumento e mostra Capitu dissimulada, cheia de artimanhas, por um lado e, por outro lado, faz questão de registrar uma Capitu amorosa, entristecida, ferida, ao lado de circunstâncias que, aparentemente, poderiam comprovar a inocência de Capitu. É a construção da ambigüidade, motor maior da grandeza da obra.
lRITMO NARRATIVO
A narrativa é lenta, pausada.
O primeiro momento do romance, isto é, antes do casamento vai encontrar ainda adolescentes os dois enamorados.
lO segundo momento, depois do casamento, registra o cotidiano dos apaixonados casados, adultos e o seu paulatino amargor e amadurecimento, o protagonista masculino carregando subjacentemente em seu percurso de vida toda a dor  de seu infortúnio.
lHá notável diferença no ‘ritmo’ narrativo entre o primeiro segmento, aquele em que os amores e aventuras da adolescência são largamente narrados, e a ‘segunda’, quando Bentinho e Capitu vivem o cotidiano da sua tragédia.
lA partir do capítulo XCVII, você poderá perceber como o narrador torna bem mais rápida a passagem ou sucessão dos acontecimentos.

Temas simultâneos:
lÀ pergunta “afinal, Dom Casmurro fala sobre o quê?” cabem respostas variadas, demonstrando a amplidão do leque temático. Eis alguns dos temas desenvolvidos em Dom Casmurro: a vida e as ‘fases’ da vida; a infância, a infância como forja do adulto, a mulher, a psicologia feminina. A feminidade é vista sob a ótica de Bentinho, para quem a mulher tem como principais características, próprias ao feminino, a curiosidade, o detalhismo, a objetividade.
A VISÃO DO NARRADOR
lamarga, pessimista e niilista da vida humana. Sarcasmo e ironia dão o tom a todas as páginas
ldesmascara o ser humano na sua hipocrisia, ns suas baixezas, coloca-o nu diante dos olhos do leitor, passível de ser observado nos seus mais profundos pensamentos e torpezas.
lAs crenças religiosas são desmitificadas, assim como a própria Igreja e o comportamento dos fiéis.
lQuestiona o sentido da vida. Até mesmo o amor se desfaz, desmorona. Nada subsiste. A visão do narrador é eivada de ironia, às vezes amarga, às vezes brincalhona, como nos últimos termos do excerto acima (‘mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo’ ).

PRINCIPAIS PERSONAGENS

lCapitu  Inteligente, prática, personalidade forte e marcante, Capitu acaba se tomando a dona do romance, pois quando se fala em Dom Casmurro é a personalidade de Capitu que asoma à memória. Bentinho perde-se diante da grandeza de sua amada.
lDom Casmurro Bentinho revela-se unia criança/adolescente marcado pela timidez, sem muita iniciativa e bastante dependente da mie. Tinha uma imaginação fertilíssima, como no capitulo XXIX (O Imperador). o Dr. Bento F. Santiago, bem posto na vida, financeiramente rico (riqueza muito mais de herança do que de trabalho), casado e feliz com Capitu, quando canta na ópera da vida um “duo terníssimo”.
lD. Glória Mãe de Bentinho, cedo assume as rédeas da casa com a morte do marido, o qual deixa a família bem amparada. Ao longo do romance, D. Glória, revela-se religiosa, apegada às tradições e ao passado, conforme observa o narrador: “Minha mãe exprimia bem a fidelidade aos velhos hábitos, velhas maneiras, velhas idéias, velhas modas Tinha o seu museu de relíquias, pentes desusados, um trecho de mantilha, umas moedas de cobre...”

lJosé Dias Era agregado da família e gostava muito de Bentinho. Bajulador e de idéias chochas, realçava-as com superlativos, que passam a ser sua marca registrada: “José Dias amava os superlativos” e usa-os com freqüência ao longo do romance, inclusive na hora de morrer quando se refere ao dia como “lindíssimo “.
lEscobar Muito amigo de Bentinho (colegas de seminário), Escobar era casado com Sancha e revela-se um tanto quanto misterioso: teria participado do “trio” lembrado por Bento, quando se refere ao modo de ser de uma ópera, formando o triângulo amoroso da suspeita do narrador?
lEzequiel É o filho de Bento com Capitu, pejorativamente chamado pelo pai de “filho do homem”. Gostava de imitar e imitava muito bem sobretudo Escobar. Vitima da suspeita do pai, acaba sendo afastado, assim como a mãe, para a Suíça, tendo morrido perto de Jerusalém, como arqueólogo.

LINGUAGEM

l              A linguagem de Machado de Assis é marcadamente acadêmica: clássica, bem cuidada, regida pelas normas de correção gramatical.  Em alguns pontos, tal como ocorre no Modernismo, ele registra aspectos típicos do registro lingüístico popular, como nesta falas de Capitu e de um vendedor de cocada:
l      - Sinhazinha, qué cocada hoje?
l      - Cocadinha tá boa...

l– Papai naturalmente há de querer ir também, mas é melhor que ele vá à casa do padre, é mais bonito. Eu não, que já sou meia moça, concluiu rindo.


Adota constantemente frases sentenciosas,
como: “A vida é uma ópera”
e são muito comuns as alusões e referências:
 “Um dos aforismos de Franklin (Benjamin Franklin)é que, para quem tem de pagar na páscoa, a quaresma é curta. A nossa quaresma não foi mais longa que as outras, e minha mãe, posto me mandasse ensinar latim e doutrina, começou a adiar a minha entrada no seminário.”
Além disso, mantém diálogo constante com o leitor
l, conversando, explicando, aconselhando, ponderando, convencendo,como nos excertos que reproduzo abaixo:


l“CAPÍTULO X / ACEITO A TEORIA
lQue é demasiada metafísica para um só tenor, não há dúvida; mas a perda da voz explica  tudo, e há filósofos que são, em resumo, tenores desempregados.
lEu, leitor amigo, aceito a teoria do meu velho Marcolini, não só pela verossimilhança, que é muita vez toda a verdade, mas porque a minha vida se casa bem à definição. Cantei um duo tecnicismo, depois um trio, depois um quatro... Mas não adiantemos; vamos à primeira parte, em que eu vim a saber que já cantava, porque a denúncia de José Dias, meu caro leitor, foi dada principalmente a mim. A mim é que ele me denunciou.”

l“CAPÍTULO XLV / ABANE A CABEÇA, LEITOR
lAbane a cabeça leitor; faça todos os gestos de incredulidade. Chegue a deitar fora este livro, se o tédio já o não obrigou a isso antes tudo é possível. Mas, se o não fez antes e só agora, fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página, sem crer por isso na veracidade do autor. Todavia, não há nada mais exato. Foi assim mesmo que Capitu falou, com tais palavras e maneiras. Falou do primeiro filho, como se fosse a primeira boneca.”
l“CAP. CXLVIII: E BEM, E O RESTO?
l“Mas eu creio que não, e tu concordarás comigo; se te lembras bem da Capitu menina...”
AMBIGÜIDADES

l             Machado praticamente relativiza(   ) tudo. O professor Alfredo Bosi(  ) vê a necessidade de abrir as portas todas para a compreensão da gênese da obra, objetivando sua melhor análise. Afirma que nada se ganha ao omitir-se a força objetiva que forjou o escritor, em suma, o seu passado, suas origens.
marcas fortes
l             Há no romance marcas fortes, capazes de denunciar que a produção do texto provém de um Machado de Assis mulato, pobre, gago e epilético, tímido e retraído, além de possuidor apenas das primeiras letras, realizadas em escola pública, somadas a aulas de francês e latim, por um padre amigo.
lFez-se por si, é verdade, em uma brilhante trajetória que o retirou de um destino para transformá-lo em um dos artistas mais celebrados no Brasil e no exterior, e essas condições parecem ter conduzido sua prosa a uma espécie de limite, traduzido nesse tão decantado estilo sutil, de delicado equilíbrio, carregado de humor e ironia, de concepção fina e esmerado em ambigüidades, de sensualidade velada, antes a sugerir que dizer. Tudo parece depreender uma renúncia  consciente a procedimentos de texto que, a seu ver, talvez não significassem respeito a um modo social alcançado a duras penas.


Obra aberta
lTrata-se de uma obra aberta, entregando-se ao juízo de leitor que pode concluir, a seu modo, as questões mais intrincadas do enredo. Autor de algumas das mais belas frases da literatura em língua portuguesa, ficarão para sempre suas famosas expressões "OLHOS DE RESSACA" e "CIGANA OBLÍQUA E DISSIMULADA", registro do grande gênio que é e será contemplado por gerações.












O CORTIÇO

Contexto Histórico

Segunda metade do Século XIX.
O Naturalismo goza de grande prestígio na Europa. Trata-se da reversão dos pressupostos científicos do XIX (Evolucionismo, Positivismo, Determinismo, Socialismo, Medicina Experimental) para a literatura, especialmente dos campos da termodinâmica e da biologia. Da termodinâmica, dois conceitos, revestidos em metáforas: transformação e desorganização da energia; da biologia, destaca-se o evolucionismo, podendo localizar-se, até com insistência, na estrutura de O Cortiço, leis e princípios formulados por Mendell, Darwin, Huxley, Spencer e uma série de outros cientistas e pensadores, e vai ocorrer, também metaforicamente, sob forma sociológica.
Aluísio, certamente inspirado a partir de leituras científicas, paracientíficas e da ficção de autores europeus, expressa em sua obra inconformismo com a sociedade de seu tempo. O Naturalismo mostra o homem como produto de forças naturais, determinado por elas (fantoche de um destino pré-estabelecido). Analisa o comportamento patológico, suas taras sexuais, seu lado animalesco, mero produto da hereditariedade, fruto do meio em que vive e sobre o qual age. Predomina o instinto, o fisiológico e o natural, retratando a agressividade, a violência, o erotismo como elementos que compõem a personalidade humana. Para provar suas teses, os escritores naturalistas obrigam-se muitas vezes a apresentar protagonistas doentios, criminosos, bêbados, histéricos, maníacos. Exploravam temas como o homossexualismo, o incesto, o desequilíbrio que leva à loucura, criando personagens que eram dominados por seus instintos e desejos, pois viam no comportamento do ser humano traços de sua natureza animal.O autor
Além de escritor de sucesso, que viveu da literatura por anos, também foi caricaturista, jornalista e diplomata, romancista, contista, cronista, jornalista.
Aluísio de Azevedo nasceu em São Luís do Maranhão e morreu em Buenos Aires, Argentina, em 1913, com 56 anos. Em 1881, em plena efervecência crescente do abolicionismo, publica o romance O Mulato, obra que deixa a sociedade escandalizada: é de modo cru que trata a questão racial, demonstrando ser abolicionista convicto. É a obra que marca o início do Naturalismo no Brasil.
Obras
Uma Lágrima de Mulher, novela, 1880
O mulato, novela, 1881
Mistério da Tijuca ou Girândola de amores, novela, 1882
Memórias de Um Condenado ou Condessa Vesper, novela, 1882
Casa de pensão, novela, 1884
Filomena Borges, novela, 1884
O homem, novela, 1887
O cortiço, novela, 1890
O coruja, novela, 1890
A Mortalha de Alzira, novela, 1894
Demônios, conto, 1895
O livro de uma sogra, novela, 1895
O Bom Negro, crônica
O Esqueleto, (participação de  Olavo Bilac).
Os Doidos, peça
Casa de Orates, peça
Flor de Lis, peça
Em Flagrante, peça
Caboclo, peça
Um Caso de Adultério, peça
Venenos que Curam, peça
República, peça
O Cortiço

Resumo

João Romão, português, grosseiro, ambicioso e sem escrúpulos, enriquece à custa de penosos sacrifícios pessoais e da exploração de outros, não raro com desonestidade. Compra um pequeno estabelecimento comercial num subúrbio da cidade do Rio de Janeiro, próximo a uma quitanda, de propriedade de Bertoleza, uma escrava fugida, trabalhadeira e que possuía algum dinheiro, graças a muita economia. Os dois tornam-se amantes e Bertoleza passa a trabalhar para o português, como "burro de carga". Logo ele se apropria do dinheiro de Bertoleza e com ele compra terrenos, nos fundos de seu armazém, alargando seu imóvel, e engana a mulher, informando que com aquele dinheiro comprara sua liberdade (a carta de alforria). Chega a mostrar-lhe um documento falsificado por ele mesmo.Com o decorrer do tempo, João Romão compra mais terras. Constrói três casinhas e imediatamente as aluga. O negócio dá certo; novos cubículos são construídos e se amontoam nos terrenos do português que, ganancioso, acaba construindo vasto e movimentado cortiço. Ao lado vem morar outro português, mas de classe elevada, com certos ares de pessoa importante, o Miranda, cuja mulher leva vida irregular.
            Os dois patrícios não se dão. Miranda não vê com bons olhos o cortiço perto de sua casa. No cortiço moram os mais variados tipos: brancos, pretos, mulatos, lavadeiras, malandros, assassinos, vadios, benzedeiras etc.
            João Romão tem agora também uma pedreira e para administrá-la contrata outro português, Jerônimo, que acaba apaixonado por Rita Baiana, moradora provocante e sensual, que faz o jovem Jerônimo perder a cabeça.
            Enciumado, Firmo, amante de Rita, acaba brigando com Jerônimo e, hábil na capoeira, abre a barriga do rival com uma navalha e foge.
            Na mesma rua, outro cortiço, o "Cabeça-de-gato", se forma. Os moradores desse cortiço apelidam o de João Romão de "Carapicus", como revide ao apelido "Cabeça-de-gato que receberam daqueles e fora lá que Firmo passara a morar desde a briga, tornando-se o chefe dos malandros locais.
            Jerônimo, após sair do hospital, arma uma emboscada para o rival e o mata, fugindo em seguida com Rita Baiana, abandonando a família.
            Querendo vingar a morte de Firmo, os moradores do "Cabeça-de-gato" travam séria briga com os "Carapicus". Um incêndio, porém, ateado pela "Bruxa", espalha-se por vários barracos do cortiço de João Romão e põe fim à briga coletiva.
            O português, agora rico, reconstrói o cortiço, dando-lhe nova aparência e pretende casar-se com uma mulher "de fina educação", legitimamente. Endinheirado, o que ele almeja é a ascensão social. Escolhe Zulmira, filha do Miranda e é o Botelho, velho parasita agregado do Miranda, e de grande influência junto deste, quem aplaina o caminho para João Romão, mediante o pagamento de vinte contos de réis ao Miranda.
            Os dois portugueses se tornam amigos e o casamento é combinado. Só há uma dificuldade: Bertoleza. João Romão, então, traça um piano para livrar- se dela: manda um aviso aos antigos proprietários da escrava, denunciando-lhe o paradeiro.
            Pouco tempo depois, surge a polícia na casa de João Romão, acompanhando seus antigos senhores, para levar Bertoleza que se suicida cortando o ventre com a mesma faca com que estava limpando o peixe para a refeição de João Romão.
 Importância
O Cortiço é considerada a mais importante obra do Naturalismo brasileiro, embora essa classificação não seja pacífica, concorrendo com outra, também de Aluísio, O Mulato. O tema é a ambição e a exploração do homem pelo próprio homem. João Romão, aspirante à riqueza e Miranda, já rico, aspirante à nobreza. Do outro lado, a “gentalha", caracterizada como um conjunto de animais, movidos pelo instinto e pela fome.
É um clara crítica ao capitalismo selvagem, eivada do zoomorfismo característico da época em que todas as personagens encontram insistente equivalência no mundo dos animais, como em "estrompado como uma besta.” , "anca de animal do campo”, "uma cadela no cio".

Personagens

JOÃO ROMÃO – o português, personagem principal, que representa o capitalista explorador;
BERTOLEZA – a escrava fugida, amante de João Romão;
MIRANDA – comerciante português. Principal opositor de João Romão. Mora num sobrado aburguesado, ao lado do cortiço. , opositor de João Romão mas seu futuro sogro, afinal;
JERÔNIMO – português administrador da pedreira de João Romão, disciplinado até o aparecimento de Rita Baiana;
RITA BAIANA – mulata sensual e provocante Representa a mulher brasileira, estereótipo.
PIEDADE – a portuguesa mulher de Jerônimo.
BOTELHO - vivia com o Miranda, no sobrado, como uma espécie de agregado;
CAPOEIRA FIRMO – mulato amante de  Rita Baiana.
ALBINO - homossexual efeminado, trabalha com as lavadeiras;
LÉONIE - prostituta, independente financeiramente e madrinha de Pombinha;
POMBINHA - a jovem por quem todo o cortiço torce, afilhada de Léonie, aguarda a menstruação (já tem 18 anos) para casar-se com um caixeiro viajante e sair do Cortiço; vai prostituir-se.

DEMAIS PERSONAGENS – representados por lavadeiras, caixeiros, trabalhadores da pedreira, além de, entre outros:
-Henrique: filho de um fazendeiro que se encontra aos cuidados de Miranda e que cultivará um caso com D.Estela; - Valentim: filho alforriado de uma escrava por quem D. Estela nutria afeição ilimitada; Leonor: negrinha virgem, moradora do cortiço; Leandra (Machona): portuguesa feroz, habitante do cortiço; Ana das Dores: filha desquitada de Machona; Neném: filha virgem de Machona, muito cobiçada; Agostinho: filho caçula de Machona que morre num acidente da pedreira; Augusta: brasileira branca, honesta, casada com Alexandre e com muitos filhos; Alexandre: mulato, militar; Leocádia: portuguesa, esposa de Bruno, comete adultério com Henrique; Bruno: ferreiro; Paula (a Bruxa): cabocla velha que exercia função de curandeira; Marciana: mulata velha, com mania de limpeza, mãe de Florinda, que perde o juízo quando a filha foge de casa; Florinda: filha virgem de Marciana, que engravida de um dos vendeiros de Romão; Dona Isabel: mãe de Pombinha; Delporto, Pompeo, Francesco e Andrea: imigrantes italianos; retratados como carcamanos imundos; Porfiro: mulato capoeira amigo de Firmo; Libório: velho pão-duro; Pataca: cúmplice de Jerônimo no assassinato de Firmo.

Questões







ESTAS ANOTAÇÕES DE LEITURA FORMAM A PARTE INTRODUTÓRIA DO LIVRO "HONRA E PAIXÃO - A VERDADEIRA HISTÓRIA DE UM PRIMO CHAMADO BASÍLIO" - edição esgotada.



ANOTAÇÕES DE LEITURA
 Aperitivo sobre Eça de Queirós?
Algumas poucas páginas de Honra e Paixão, de Roberto Gonçalves Juliano



Honra e Paixão
A verdadeira história de um primo chamado Basílio 

UMA VISÃO CRÍTICA DE “O PRIMO BASÍLIO”, DE EÇA DE QUEIRÓS

           


PREFÁCIO
                        Percorrer O Primo Basílio é um presente. Não consigo deixar de pensar em como seria a sua leitura por uma companhia de bons atores portugueses - Sim! gente de Portugal! – que contasse com uma grande atriz de Lisboa que falasse português de Lisboa interpretando Juliana. E teria de ser gente sagaz, assessorada de uma direção competente que, ao mesmo tempo, soubesse estimular as diferenças, compreendendo as disposições textuais do autor  e, do plano virtual para o real, “actualizando” as suas intenções. Por quê?
                        Para os ouvidos brasileiros, acostumados a um cantar diferente, o sotaque lusitano tem uma virtude especial, é certo, mas não é por essa razão que proponho a atualização do discurso por falantes nativos.  A razão é bem outra. A alegria e a força do texto estão concentradas na linguagem. Ali as personagens falam do jeito que efetivamente falam, não usurpam léxico e sintaxe do padrão culto, estão soltas, ganham relevo e vida. Ouvi-las tal como foram pensadas seria uma festa! - e muito elucidativa!
                        À falta disso, cabe-nos encontrar de outra maneira a leveza desse romance, seu lado comédia e ‘pastelão’. Então,  essa leitura que a escola reclama e a universidade obriga perderia o ranço de que a veste o seu caráter quase oficial. Os incontáveis leitores brasileiros de Eça de Queirós poderiam perceber essa obra de arte como ela de fato é, e lê-la como ela merece ser lida, honrando o trabalho do grande escritor: uma arrojada transposição do mundo da linguagem real para a sua dimensão literária possível.    
                                                                                   O autor


I - Período Histórico
1 - A obra e o seu tempo
            1878. Portugal está mergulhado em profunda crise decorrente da exaustão da sua economia. Exibindo uma industrialização pífia, o antigo grande império lusitano está à margem da Europa, que vem passando por profundas transformações em decorrência do progresso.
   O país está ancorado no tempo e apenas no final do século XX parecerá reencontrar-se com os vizinhos, começando a arrumar minimamente a casa graças aos brutais investimentos realizados por aqueles para que tal descompasso não comprometesse a criação da Comunidade Econômica Européia.
            A nação vive, então, o atraso e importa de outras nações, especialmente da França, modelos de comportamento, fenômeno sempre muito comum entre os povos de alguma forma inferiorizados, mantendo-se  estilo e modelo europeus na política, nas instituições e nas idéias.
  “Nos teatros - só comédias francesas; nos homens – só livros franceses; nas lojas – só vestidos franceses; nos hotéis – só comidas francesas...”(1)                       
            Com a instituição da Monarquia Parlamentar, iniciou-se o período da Regeneração. Nele, partidos mais ou menos conservadores se alternaram no governo, entre 1851 e 1910.
Quatro Partidos em Portugal
Há em Portugal quatro partidos: o partido histórico, o regenerador, o reformista e o constituinte. Há ainda outros, mas anônimos, conhecidos apenas d’algumas famílias. Os quatros partidos oficiais, com jornal e porta para a rua, vivem n’um perpétuo antagonismo, irreconciliáveis, latindo ardentemente uns contra os outros de dentro dos seus artigos de fundo. Tem se tentado uma pacificação, uma união. Impossível! Eles só possuem de comum a lama do Chiado que todos pisam e a Arcada que a todos cobre. Quais são as irritadas divergências de princípios que os separam? - Vejamos:
O partido regenerador é constitucional, monárquico, intimamente monárquico, e lembra nos seus jornais a necessidade da economia.
O partido histórico é constitucional, imensamente monárquico, e prova irrefutavelmente a urgência da economia.
O partido constituinte é constitucional, monárquico, e dá subida atenção à economia.
O partido reformista é monárquico, é constitucional, e doidinho pela economia!
Todos quatro são católicos,
Todos quatro são centralizadores,
Todos quatro têm o mesmo afeto à ordem,
Todos quatro querem o progresso, e citam a Bélgica,
Todos quatro estimam a liberdade.
Quais são então as desinteligências? - Profundas! Assim, por exemplo, a idéa de liberdade entendem-na de diversos modos.
O partido historico diz gravemente que é necessário respeitar as Liberdades Públicas. O partido regenerador nega, nega n’uma divergência resoluta, provando com abundância de argumentos que o que se deve respeitar são - as Públicas Liberdades.
A conflagração é manifesta!” 
                                                                         Eça de Queirós
                                                                         in As Farpas, Maio 1871

2 - A arte literária no século dezenove em Portugal: do romantismo ao realismo-naturalismo
            Em 1865, uma polêmica resultou em confusão e acabou em duelo: opôs jovens revolucionários da Universidade de Coimbra, como Antero de Quental e Teófilo Braga,  de um lado, e escritores românticos, liderados por Antonio Feliciano de Castilho, de outro. O episódio toma a atenção do mundo literário e intelectual português. É a Questão Coimbrã(2), também Questão do Bom Senso e do Bom Gosto.
            A polêmica foi deflagrada por Castilho, professor da Universidade e poeta romântico, na verdade o detentor do cetro das Letras em Portugal, estando Almeida Garrett já morto e Alexandre Herculano no seu retiro de Vale dos Lobos. Os adeptos do Romantismo escudam-se nele, que escrevia prefácios elogiosos para as obras de seus admiradores. Em um posfácio que escreveu para “Poemas da Mocidade”, do romântico Pinheiro Chagas, o poeta - que trocava elogios com os jovens escritores mas não perdoava as novidades adotadas porTeófilo Braga e Antero de Quental -  critica os jovens artistas universitários, que lutavam por um novo estilo para a arte e a exigiam compromissada e participante. Em sua dura resposta, Antero de Quental afirma que os jovens poetas são atacados porque ousaram prosseguir sem o visto da chancelaria dos grão-mestres oficiais, sem pedirem licença aos mestres, mas consultando só o seu trabalho e a sua consciência, sem respeito aos papas e pontífices.
            Essa carta de Antero acende a luta entre os defensores do romantismo e os partidários da nova escola. Ao lado de Castilho colocam-se Pinheiro Chagas, Camilo Castelo Branco, Júlio de Castilho, José de Castilho, Brito Aranha e Carlos Borges. Camilo escreve o opúsculo “Vaidades irritadas e irritantes” e, defendendo o movimento, Teófilo sai-se com “Teocracias Literárias”. Para Ramalho Ortigão, Antero não passa de um “demolidor da religião e da família” e os seus vinte e cinco anos são manchados “com a mais torpe das nódoas que um mancebo pode lançar no seu caráter: a cobardia”, certamente referindo-se à idade e situação do professor Castilho, cego pelo sarampo desde os seis anos de idade. A questão é resolvida com um duelo entre ambos, donde resulta o ferimento num dos braços de Ramalho Ortigão. Finalmente, vence a nova escola. Antero de Quental e seus companheiros organizam uma frente intelectual, cujos princípios são assim definidos:
“Seremos, em religião, pelo sentimento criador do coração humano, contra os mitos doutrinais das teologias; seremos, em política, pelo governo do povo; em sociologia, pela emancipação do trabalho; em literatura e arte, pelo fim social e civilizador da arte e literatura, combatendo as tendências egoístas e esterilizadoras que hoje predominam.”
3 - Pensamento e tendências do século
            A segunda metade do século XIX é marcada pela supremacia do cientificismo. Trata-se de valorizar uma visão materialista do mundo, onde a verdade precisará caminhar lado a lado com a ciência, medida de todas as coisas. A industrialização desenvolve-se, ao tempo em que o poder hegemônico da burguesia é criticado.
            A arte dessa época carrega as convicções científicas e metodológicas então dominantes: busca da objetividade, crença na razão,       preocupações sócio-políticas.
            O que muito contribuiu para a aceitação da nova estética foi inegavelmente o avanço das ciências biológicas e físico-químicas. A invenção da máquina a vapor encurta distâncias, com o aparecimento da locomotiva. Os homens se intercomunicam com mais facilidade, através do telégrafo. Essa nova civilização que surge proclama as vantagens da vida prática e a literatura se amolda a esse estilo de vida.
“E o que é hoje a poesia? O que é hoje o poeta? Que diz hoje ao mundo, que valha a pena ao mundo para o escutar? Uma experiência de Berthelot ou de Virchow, uma descoberyta de Darwin ou de Haeckel, uma página histórica de Rank ou Renan valem mais, dizem mais ao espírito do século, que toda a Babel sonora das estrofes de Victor Hugo.”
Antero de Quental

            Os poetas se impressionam com os estudos de astronomia realizados por Laplace, como se percebe em Soares de Passos e Gomes Leal. Guerra Junqueiro poetiza a química da água e Cesário Verde, que concilia materialismo e subjetivismo, canta, em seus poemas, o trabalho nas indústrias e oficinas: é a aproximação entre poesia e cotidiano, a grande descoberta do escritor realista. Os grandes heróis históricos do romantismo são substituídos pelo herói ou anti-herói do cotidiano – homens comuns, com problemas comuns, semelhantes aos vividos pelo público-leitor desse novo tempo. Trata-se, em verdade, de uma suplência do herói antigo, mera representação daquele, no dizer de Walter Benjamim.
            O realismo(3) é, strictu sensu, a moda literária da segunda metade do século XIX, período comprometido com o caráter empírico do positivismo de Augusto Comte, isto é, o realismo naturalista, o que faz os pensadores da época chegarem a admitir o aniquilamento da metafísica e da religião, pensamento que invade a poesia e a arte.
SÉCULO XIX
industrialização
expansão industrial – inchaço das grandes cidades
êxodo rural
agrava-se a péssima distribuição de renda
burguesia enriquecida
progresso em toda a Europa
Paris destaca-se (centro de moda e de difusão cultural)
Portugal permanece à margem da Europa moderna

II - Sobre o autor
1. Informações biográficas
            No último ano do século XIX, no dia 16 de agosto de 1900, Eça de Queirós falecia em Paris. José Maria de Eça de Queirós, nascido em Póvoa de Varzim, Portugal, em 25 de novembro de 1845, estava para completar 55 anos.
            Eça foi concebido antes do casamento dos pais, José Maria d’Almeida Teixeira, Juiz de Direito, e Carolina Augusta Pereira de Eça (‘filho natural de José Maria d’Almeida Teixeira e de may incognita’), o que era inaceitável para a sociedade burguesa do Portugal da época. Por esse motivo, foi batizado às escondidas. Tem quatro anos de idade quando os pais se casam, na Igreja do Convento de Santo Antonio, em 1849. Nunca viveu com eles. Quem o criou até essa época foi uma ama e com a morte dela foi recebido na casa dos avós paternos. Eça foi reconhecido oficialmente apenas quando já estava com quarenta anos.
            Com a morte dos avós, o pai o envia, aos dez anos, em 1855, para a cidade do Porto(4), bem próxima a Póvoa, como aluno interno no Colégio da Lapa. Foi lá, sempre longe dos pais, que fez seus primeiros estudos e conheceu Ramalho Ortigão, colega de escola, então com dezenove anos. Ortigão lhe ensinará francês e exercerá forte influência sobre ele, desenvolvendo no amigo mais novo o amor aos livros.
            Em 1861, com apenas dezesseis anos, matriculou-se na Universidade de Coimbra, onde estudavam duas das personalidades mais marcantes do século XIX português: Teófilo Braga e Antero de Quental, formando-se em Direito, no ano de 1866, aos vinte e um anos de idade. Eça não se envolveu na Questão Coimbrã.
            Foi nesse mesmo ano que iniciou suas atividades literárias no jornal “A Gazeta de Portugal”, trabalhos que mais tarde, e postumamente, vão ser publicados sob o título “Prosas Bárbaras”, conjunto de textos que se caracteriza pelo estilo audacioso e pelo pensamento multifacetado. Essas páginas não indicam, ainda, o escritor realista em que Eça de Queirós se tornaria, mas são reveladoras da multiplicidade de influências(5) que recebeu das leituras que fez.

Eça de Queirós
1845 – 1900

1866 - Forma-se em Direito pela Universidade de Coimbra
1868 – Participa do “Cenáculo”, um espaço de debates e tertúlia                 criado pelos vitoriosos da Questão Coimbrã
1871 - envolve-se nas “Conferências do Cassino Lisbonense (6)
1872 – aprovado em concurso para a carreira diplomática; nomeado cônsul nas Antilhas Espanholas (Havana)
1875 – inaugura o realismo-naturalismo em Portugal com “O Crime do Padre Amaro”
1878 – “O Primo Basílio”

            Vai, então, para Lisboa, onde se estabelece como auxiliar da banca de advocacia de um amigo da família. Em 1867, dirige um jornal político do Alentejo, o “Distrito de Évora”. Regressa a Lisboa, em 1868, abre escritório de advocacia e passa a participar do “Cenáculo”, uma espécie de tertúlia(7), reuniões de um grupo de intelectuais boêmios liderados por Antero de Quental(8).
            Em 1869, parte para o Egito em companhia do Conde de Resende, para fazer a reportagem da inauguração do Canal de Suez. Aproveita-se dessa oportunidade para visitar a Palestina e são dessa viagem os dados e a inspiração para depois escrever “A Relíquia” e “O Egito”. Em Portugal, um ano após, é nomeado administrador do Conselho de Leiria, em cujo ambiente se inspira para a composição do romance “O Crime do Padre Amaro”. Nesse mesmo ano escreve, em colaboração com Ramalho Ortigão, “O Mistério da Estrada de Sintra”, fundando também “As Farpas”, uma revista de crítica social.
            Em 1871, envolve-se nas “Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense”, ao lado de Antero e Teófilo Braga, quando se empenha na denúncia do atraso político, moral e científico das nações ibéricas.
            Em 12 de junho, dentro da programação do Cassino, proferiu a sua conferência intitulada “O Realismo como Expressão da Arte”. Nela, Eça renega o romance histórico (Herculano(9)) e a prosa fantástica (Castilho(10)), afirmando ser requisito básico da literatura moderna a verdade, que o seu método deveria ser a análise e que o seu objetivo seria obrigatoriamente a melhora da sociedade.
            À Arte caberia, portanto, de acordo com o que pregou o jovem teórico, um papel essencial: transformar-se em um instrumento das causas sociais, veículo da crítica social e da denúncia dos costumes. Eça de Queirós torna-se, dessa forma, um dos grandes da denominada Geração de 70, iconoclasta e modernizadora. A par disso, Eça também freqüentou um grupo de artistas que cultivavam o Parnasianismo, então moda na França(11) e que também no Brasil alcançou grande expressão, numa atitude paradoxal pois, bem distantes dos ideais realistas-naturalistas, os parnasianos valorizavam acima de tudo a forma e os efeitos de beleza que ela poderia propiciar.
O REALISMO COMO EXPRESSAO DA ARTE
Literatura = Arte
Expressão da Arte = Realismo
requisito básico: a verdade
método: a análise
objetivo obrigatório: a melhora da sociedade.
papel essencial da arte: instrumento das causas sociais

            Em 1872, tendo sido aprovado em concurso para a carreira diplomática, é nomeado cônsul em Havana (antigas Antilhas Espanholas). No ano seguinte, vai para os Estados Unidos, em missão oficial. É transferido, em 1874, para o consulado de Newcastle-on-Tyne, na Inglaterra, onde escreve “O Primo Basílio”, e, no mesmo ano em que se dá a publicação do romance, em 1878, é transferido para Bristol.
            O naturalismo em Eça de Queirós é apenas uma fase - é importante acrescentar essa observação! - aliás uma fase sobremaneira rápida. Em 1880, apenas dois anos depois de O Primo Basílio, Eça publica O Mandarim — uma novela fantástica, em cujo enredo tem participação decisiva uma figura medieval e romântica: o Diabo. É o próprio Eça quem define a obra como “um conto fantasista e fantástico, onde se vê ainda, como nos bons velhos tempos, aparecer o diabo, embora vestindo sobrecasaca, e onde há ainda fantasias, embora com ótimas intenções psicológicas”. Nessa obra, ele valoriza o exotismo, a intervenção sobrenatural, os personagens agem independentemente dos condicionamentos deterministas das suas ações. De fato, se por Naturalismo entendermos o romance de análise e crítica social, baseado na investigação das determinações que o meio físico, os costumes e a herança genética impõem às personagens, apenas poderão ser denominadas naturalistas duas novelas queirosianas: O Crime do Padre Amaro(12) e “O Primo Basílio”, este último focado na média burguesia lisboeta. Em um e outro, trata-se da mulher vítima dos defeitos de educação, da sua falta de fins próprios e de personalidade evoluída, tal qual a Bovary(13), de Flaubert(14).
            Eça escreveu durante dezesseis anos seguidos, a partir de 1880, na “Gazeta de Notícias”. Em 1885, casa-se no Porto com D. Maria Emília de Castro Pamplona, irmã do Conde de Resende, ligando-se assim a uma família aristocrática. Em 1888, é nomeado cônsul e transferido para Paris, como era seu desejo. Morreu lá, cerca de dez anos depois.


2. Bibliografia do autor

Romance
1871 – O mistério da estrada de Sintra (com Ramalho Ortigão)
1876 – O crime do padre Amaro
1878 – O primo Basílio
1879 – O mandarim
1887 – A relíquia
1888 – Os maias
1900 – A ilustre casa de Ramires
1891 – A correspondência de Fradique Mendes
1901 – A cidade e as serras
1925 – A capital
1925 – O conde d’Abranhos
1925 – Alves e Cia.
1980 – A tragédia da rua das Flores

Conto
1902 – Contos

Jornalismo e Hagiografia
1905 – Prosas bárbaras
1890 – Uma campanha alegre
1905 – Cartas de Inglaterra
1905 – Ecos de Paris
1907 – Cartas familiares e bilhetes de Pari
1909 – Notas contemporânea
1912 - Últimas Páginas
1926 – O Egito
1944 – Crônicas de Londres
1944 – Cartas de Lisboa
Correspondência
1925 – Correspondência
1945 – Cartas de Eça de Queirós
1948 – Eça de Queirós entre os seus – Cartas íntimas


3. Bibliografia sobre o autor

AMARAL, Eloi do e Cardoso Martha (org.) - Eça de Queirós. In Memoriam, 2ª ed., Coimbra, Atlântida Editora, 1947.
BECKER, Colette, (1992) Lire le Réalisme et le Naturalisme, Paris, Dunod.
BELLINE, Ana Helena Cizotto “Leituras de Luísa” in Elza Miné e Benilde Justo Caniato (eds.), 150 anos com Eça de Queirós, São Paulo, Centro de Estudos Portugueses: Área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa / FFLCH / USP, 1997, pp. 521-526.
BERRINI, Beatriz, (1984) Portugal de Eça de Queiroz, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
BOLÉO, Manuel de Paiva, (1941) O Realismo de Eça de Queiroz e a sua Expressão Artística, Biblos, 17, 2, pp. 697-731.
CARVALHO, Mário Vieira de, (1986) Eça de Queirós e a Ópera no Século XIX em Portugal, Colóquio-Letras, 91, pp. 22-36.
CAVALCANTI, Paulo - Eça de Queirós agitador no Brasil, ed. rev. e aument., Lisboa, “Livros do Brasil”, 1972.
CHEVREL, Yves, (1982) Le Naturalisme, Paris, P.U.F.COLEMAN, Alexander - Eça de Queirós and European Realism, New York-London, New York Univ. Press, 1980.
CORTESÃO, Jaime - Eça de Queirós e a questão social, Lisboa, Portugália, 1970.
CUNHA, Maria do Rosário - Molduras: articulações externas do romance queirosiano, Coimbra, Universidade Aberta, 1997.
DALLENBACH, Lucien, (1977) Le récit spéculaire: essai sur la mise en abyme, Paris, Editions du Seuil.
D’ALPUIM, Maria Augusta Eça - Os Eças, Viana do Castelo, Edição da Autora, 1992.
DUARTE, Luiz Fagundes - A fábrica dos textos, Lisboa, Cosmos,1993.
FARIA, Eduardo Lourenço de, (1974) O Primo Basílio: structure vide ou structure remplie?, Sillages, 4, pp. 57-69.
FARO, Arnaldo da Costa - Eça e o Brasil, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, Editora Nacional, 1977.
FIGUEIREDO, Maria do Pilar, (1990) A mulher nos romances de Eça de Queirós, Luís Alberto Alves (coord) Actas do I Encontro Internacional de Queirosianos, Edições Asa, pp. 93-99.
18.       GROSSEGESSE, Orlando - Konversation und Roman. Untersuchungen zum Werk von Eça de Queiroz, Stuttgart, Franz Steiner Verlag, 1991.
GUERRA DA CAL, Ernesto - Lengua e estilo de Eça de Queiroz. Apéndice. Bibliografía queirociana sistemática y anotada e iconografía artística del hombre y la obra, Coimbra, Por Ordem da Universidade, 1975-1984, 6 vols.
GUERRA DA CAL, Ernesto - Língua e estilo de Eça de Queiroz, 4a ed., Coimbra, Liv. Almedina, 1981.
JARNAES, John, (1977) Uma Leitura Política de O Primo BasílioColóquio-Letras, nº40, pp. 28-40.
JESUS, Maria Saraiva de “O Primo Basílio e Os Maias: da convergência satírica à ambivalência irónica”, Revista da Universidade de Aveiro/Letras, 6-7-8, 1989-1990-1991, pp. 135-175.
LIMA, Isabel Pires de, (1987) As Máscaras do Desengano. Para uma abordagem sociológica de Os Maias de Eça de Queirós, Lisboa, Caminho.
LIMA, Isabel Pires de “Entre primos: d’O Primo João de Brito a O Primo Basílio “, Revista da Faculdade de Letras do Porto. Línguas e Literaturas, II Série, XI, Porto, 1994, pp. 229-245.
LIMA, Isabel Pires de (coord.) - Eça e “Os Maias”, Porto, Edições Asa, 1990.
LINS, Álvaro - História literária de Eça de Queiroz, Rio de Janeiro, Ed. de Ouro, 1965.
LOPES, Óscar “Efeitos de polifonia vocal n’O Primo Basílio” in Isabel Pires de Lima (coord.), Eça e “Os Maias”, Porto, Edições Asa, 1990, pp. 109-115.
MAGALHÃES, José Calvet de - José Maria, a vida privada de um grande escritor, Venda Nova, Bertrand, 1994.
MARTINS, A. Coimbra - Ensaios queirosianos, Lisboa, Pub. Europa-América, 1967.
MATOS, A. Campos (org.) - Dicionário de Eça de Queiroz, 2ª ed., Lisboa, Caminho, 1993.
MEDINA, João - Eça político, Lisboa, Seara Nova, 1974.
MEDINA, João - Eça de Queiroz e a Geração de 70, Lisboa, Moraes Editores, 1980.
MENEZES, Djacir - Crítica social de Eça de Queiroz, 2ª ed., Fortaleza, Imprensa da Univ. do Ceará, 1962.
MORNA, Fátima F., (1991) Em busca do Romance Absoluto de O Primo Bazílio de Eça de Queiroz, Hispania, 73, 3, pp. 519-525.
MOOG, C. Viana - Eça de Queirós e o século XIX, 5ª ed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1966.
OLIVEIRA, José Lopes de - Eça de Queirós. História das suas Obras contada por ele mesmo, Lisboa, Vida Mundial Editora, 1944.
PEREIRA, Lúcia Miguel e Câmara Reys (org.) - Livro do Centenário de Eça de Queirós, Lisboa / Rio de Janeiro, Edições “Dois Mundos”, 1945.
PETIT, Lucette, (1987) Le Champ du Signe dans Le Roman Queirosien, Paris, Fondation Calouste Gulbenkian.
PINPÃO, Álvaro Costa, (1952) As ideias de Eça, Gente Grada, Coimbra, Atlântida, pp. 71-93.
PINPÃO, Álvaro Costa, (1952) A Arte nos romances de Eça, Gente Grada, Coimbra, Atlântida, pp. 95-117
PIRES, António Machado, (1992) (2ª edição) A ideia de decadência na Geração de 70, Lisboa, Vega.
QUEIRÓS, Eça de, (1969) O Primitivo prólogo das Farpas - Estudo social de Portugal em 1871, Uma Campanha Alegre, Porto, Lello & Irmão Editores, vol. I, pp. 11-38 [1ª edição, 1890-1891].
QUEIRÓS, Eça de, (1969) As Meninas da geração nova em Lisboa e a educação contemporânea, Uma Campanha Alegre, Porto, Lello & Irmão Editores, vol. II, pp. 107-133, [1ª edição, 1890-1891].
QUEIRÓS, Eça de, (1969) O problema do adultério, Uma Campanha Alegre, Porto, Lello & Irmão Editores, vol. II, pp. 195-218, [1ª edição, 1890-91].
QUEIRÓS, Eça de, (1983) Correspondência, Leitura, coordenação, prefácio e notas de Guilherme de Castilho, vol. I, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
QUEIRÓS, Eça de, (1990) O Primo Bazílio, Organização, introdução e notas de Luiz Fagundes Duarte, fixação do texto de Maria Helena Garvão, Lisboa, Dom Quixote, [1ª edição, 1878].
REIS, Carlos, (1982) A Temática do Adultério n‘O Primo BazílioConstrução da Leitura. Ensaios de Metodologia e de Crítica Literária, Coimbra, I.N.I.C./ Centro de Literatura Portuguesa.
REIS, Carlos “A temática do adultério n’O Primo Basílio” in Construção da leitura. Ensaios de metodologia e de crítica literária, Coimbra, Instituto Nacional de Investigação Científica / Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, 1982, pp. 117-129.
REIS, Carlos, (1984) (3ª edição) Estatuto e Perspectivas do Narrador na Ficção de Eça de Queirós, Coimbra, Livraria Almedina.
REIS, Carlos - Eça de Queirós consul de Portugal à Paris. 1888-1900, Paris, Centre Culturel C. Gulbenkian - Portugal, 1997.
REIS, Carlos e M. do Rosário Milheiro - A construção da narrativa queirosiana. O espólio de Eça de Queirós, Lisboa, Imp. Nacional-Casa da Moeda, 1989.
ROSA, A. Machado da - Eça, discípulo de Machado?, 2ª ed., Lisboa, Ed. Presença, 1979.
ROSA, Alberto Machado da “‘Eça de Queirós: O Primo Basílio’ por Machado de Assis”; “Análise da crítica machadiana”; “Os sonhos de Luísa e de Amaro” in Eça, discípulo de Machado?, 2ª ed., Lisboa, Ed. Presença, 1979, pp. 157-167, 169-179, 189-202, respectivamente.
SACRAMENTO, Mário - Eça de Queirós - uma estética da ironia, Coimbra, Coimbra Ed., 1945.
SARAIVA, António José, (1982) As Ideias de Eça de Queirós, Amadora, Livraria Bertrand.
SARAIVA, António José e Lopes, Óscar, (1996) (17ª edição) Eça de Queirós e a Ficção Realista, História da Literatura Portuguesa, Porto Editora, pp.855-912.
SÉRGIO, António, (1980) Notas sobre a imaginação, a fantasia e o problema psicológico-moral na obra novelística de Queirós, Ensaios, tomo VI, Lisboa, Livraria Sá da Costa, pp. 54-120.
SERRÃO, Joel, (1962) Temas Oitocentistas - II. Para a história de Portugal no século passado, Lisboa, Portugália Editora.
SILVA, Garcez da - A pintura na obra de Eça de Queiroz, Lisboa, Ed. Caminho, 1986.
SILVA, Vítor M. Aguiar e, (1990) (8ª edição) Teoria da Literatura, Coimbra, Livraria Almedina.
SIMÕES, João Gaspar, (1980) Vida e Obra de Eça de Queirós, Amadora, Livraria Bertrand.
SULEIMAN, Susan Rubin, (1983) Authoritarian Fictions. The Ideological Novel as a Literary Genre. Princeton, Princeton University Press.


















4. Alguns comentários sobre Machado e Eça

            “Sórdido como uma página de Eça de Queirós.” Era com essa frase que Henrique Correia Moreira, diretor do periódico católico O Cruzeiro(15), escrevia para desaconselhar um texto que julgava marcado pelo estilo a que chamava realista. E assim foi, efetivamente, para muita gente e por um bom tempo: imoral e realista como adjetivos equivalentes.
            Para um leitor distanciado que aproxima o seu olhar a partir do século XXI essa sordidez não é tão evidente, pois haveria de ser muitas vezes superada, desde aquela época. Não deixa de ser surpreendente, porém, a ousadia de um escritor capaz de reproduzir essa tal sordidez de um dado tempo - o seu! - e de uma dada sociedade - a sua! - buscando não permitir que a realidade - que exigia nua e crua - fosse mascarada, nem mesmo em nome do bom senso ou do bom gosto(16). Ainda hoje o texto queirosiano é capaz de chocar os menos avisados, pois são situações, fatos e tramas muito atuais.
            De qualquer forma, e também talvez por essa razão, “O Primo Basílio” foi um grande sucesso de público, vendendo rapidamente os três mil exemplares iniciais e forçando a tiragem de uma segunda edição, ainda em 1878, ano do seu lançamento. E foi essa repercussão que acabou alavancando o êxito d’O Crime do Padre Amaro, seu romance anterior, de 1876, republicado em 1880, com muitas alterações(17).
            Esse sucesso de público, todavia, - e isso é uma coisa até muito comum! – não teve a contrapartida de uma boa recepção por parte da crítica moralista. A trama e o texto foram considerados imorais, e isso é só parte de um conjunto de outras observações negativas. Entre nós, a crítica mais famosa,(17A) sempre citada quando o assunto é Eça de Queirós, foi aquela de abril de 1878, produzida por Machado de Assis, sob o pseudônimo de Eleazar. Esse nome, transbordando veneno, foi calcado no de um mártir judeu que, segundo ‘ABíblia’, preferira morrer a ingerir alimentos impuros.

1878
A Crítica de Eleazar/Machado de Assis
publicação na revista “O Cruzeiro”
autor: Machado de Assis                           pseudônimo: Eleazar
Significado do pseudônimo: personagem da Bíblia; Eleazar teria preferido morrer a ingerir alimentos impuros
Conteúdo:
repudia o “modo” naturalista d’O Primo Basílio; - faz acusações de plágio; - classifica “Luísa” de ser “antes um títere(16B) que uma pessoa moral”, um ser sem paixão, remorso ou consciência, um mero feixe de nervos e músculos; - aponta uma excessiva valorização do acessório em detrimento do essencial; - vê graves defeitos estruturais.
            Nessa época, Machado ainda estava ensaiando para, afinal, transformar-se naquele em que de fato se tornou, em suma, o maior romancista da literatura brasileira, um dos maiores mestres da língua portuguesa, em todos os tempos. No jornal “O Cruzeiro”, o mesmo que serviu de veículo à crítica de Eleazar, Machado publicava um folhetim(18): “Iaiá Garcia”, um romance romântico, de sua autoria. Não é pois de se estranhar aquela sua postura de repulsa às idéias preconizadas pelo jovem Eça e a impiedade da análise que faz com rigor pretensamente técnico.
            As observações de Machado, por mais que tenham apresentado conseqüências, pois foram realmente ouvidas pelo criador de “Luísa”, traem a visão moralista do grande escritor, aqui antes até um censor. Após a publicação dos romances que o imortalizaram, porém, viu-se que era bem mais do que isso: uma incontida admiração parece se revelar nos traços de, por exemplo, José Dias(19), um típico personagem acaciano(20).
            Mas, o que dizia Machado de Assis? Em primeiro lugar, o brasileiro denunciava o caráter naturalista da obra, estilo que repudiava desde Émile Zola (La faute de l’abbé Mouret)(21). Era inconcebível, dizia, que as personagens andassem a escarrar todo o tempo, ou, em síntese, que se lhes revelasse o grotesco, - sempre e principalmente o grotesco! - como forma de chegar ao natural, o homem real de um mundo real.
            Para desqualificar a obra, Eleazar aponta defeitos narrativos decorrentes da escola literária adotada (“O Crime do Padre Amaro revelou desde logo as tendências literárias do Sr. Eça de Queirós e a escola a que abertamente se filiava.”), afirma haver uma excessiva erotização no enredo e no vocabulário, questiona ações e reações das personagens, especialmente de Luíza, de quem afirma ser “um caráter negativo, e no meio da ação ideada pelo autor, é antes um títere do que uma pessoa moral. Repito, é um títere; não quero dizer que não tenha nervos e músculos; não tem mesmo outra coisa; não lhe peçam paixões nem remorsos; menos ainda consciência.” (22)
                  A partir da Crítica de Machado, está estabelecida a oposição realismo-naturalismo e ainda a idéia de que o modo naturalista (para construção de enredos e personagens) tem menor verossimilhança (e é pior) que o do Realismo.
            Machado estranha, nessas suas primeiras leituras da ‘tese’ de Eça, a irresponsabilidade de um autor que não filtra a realidade pelas convenções (“sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”), antes a expõe. De fato, mesmo quando já plenamente realista e na plenitude do seu talento – provavelmente o maior dentre os que trabalharam artisticamente a língua portuguesa - o criador entre nós do romance psicológico se preocupará com bem outros ângulos de observação.
            A crítica de Eleazar é uma crítica realista a uma perspectiva naturalista da arte; é assim que vem sendo compreendida e estudada. Porém, não é possível desconsiderar o fato de que “Iaiá Garcia” estava sendo publicado, naquele ano, em folhetins, no mesmo jornal O Cruzeiro que veiculou a crítica. De todo modo, se o ponto de observação for o que era Machado, à época, e não o que viria a ser, talvez fosse mais apropriado qualificar a crítica como “romântica” - isso sim! - considerando-se não o que dizia o texto crítico de Eleazar, mas o “fazer”, a prática machadiana, suficientemente documentado no Iaiá Garcia.
            Seja como for, esse texto tornou-se parte obrigatória de qualquer comentário ou estudo sobre Eça porque é uma peça rica em informações, seu autor é um mito, seu assunto é um escritor seu contemporâneo. A desqualificação intentada por Machado de Assis relativamente a “O Crime do Padre Amaro” e a “O Primo Basílio” está irremediavelmente   ligada ao motivo maior: a escola literária à qual está filiado o seu autor, estética por princípio incapaz de produzir um bom resultado(23), de acordo com o que pensa Machado, então claramente um defensor da idéia de que há uma arte pura e uma arte impura, devendo-se buscar a pura, obviamente a de Alencar(24), Herculano e Garrett(25).
            Será talvez por essa razão que o inventor de Bentinho e Capitu(26) não apreciou, como poderia, as qualidades tão flagrantemente presentes no genial português, um autor renovador, atrevido e revolucionário, cujas propostas claramente desafiavam os modelos de linguagem praticados pelos grandes românticos em que Machado ainda acreditava se espelhar. Ao invés, questiona psicologicamente as personagens de Eça. Não aceita a gratuidade do adultério de Luísa, a falta de razões psicológicas para a traição, a gratuidade sensual. O autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Quincas Borba” e “D. Casmurro”, repudia as personagens que diz serem sem profundidade, meras caricaturas, uma construção abstrata que tem origem não na realidade mas na realização da vontade do autor, empenhado na defesa de suas teses ou, mesmo, na elaboração de literatura sensacionalista. E vai além: de acordo com a crítica de Eleazar -  o que se recusou a comer impurezas, preferindo antes morrer - o maior defeito do “Primo Basílio” nem é a somatória de tudo isso. É pior; é estrutural o grande defeito. Além disso, segundo o brasileiro, o seu autor padece de grande dificuldade para distinguir o acessório do essencial, um defeito central do romance.
O Primo Basílio é por si só um novo salto qualitativo na arte da palavra. Ao lado do rigor e da beleza do texto machadiano, aqui no Brasil, clássico, sóbrio, elegante, sintaticamente perfeito, abre as portas da literatura para a beleza da língua portuguesa em estado bruto de povo, da qual o artista se apropria com estilo e graça
            As críticas são graves, e sabe-se que atingiram plenamente o seu alvo. Eça acusa o golpe. Grande parte das alterações que realizou n’ “O Crime do Padre Amaro”, para a republicação de 1880, parece ter tido causa na crítica machadiana, principalmente nas insinuações de plágio(27). Foram principalmente passagens apontadas por Machado os alvos das alterações.
            N’O Primo Basílio, porém, a crítica de Machado de Assis parece ricochetear, não se encaixa e desconhece um fato simples: aquilo que valoriza, isto é, a dramaticidade, a tensão entre personagens, as relações de causa e efeito, as ações que desencadeiam, todos esses valores acabariam sendo deixados provisoriamente de lado na nova forma em que Eça de Queirós trabalhava.
IV - Enredo
            Jorge é engenheiro e viaja profissionalmente para o Alentejo, deixando sua mulher Luísa em Lisboa. Basílio, primo e ex-namorado de Luísa, regressa a Portugal depois de anos no Brasil, para onde se mudara e onde fizera fortuna. Em visita à prima, Basílio não demora em reconquistá-la. Tornam-se amantes e passam a se encontrar diariamente em um quarto especialmente alugado, o “Paraíso”, como o chamaram.
            O adultério é descoberto pela criada Juliana, que manterá Luísa sob chantagem, ameaçando entregar a Jorge cartas e bilhetes comprometedores trocados pelos amantes – e que ela surrupiara - caso uma grande importância em dinheiro não lhe seja paga. Luísa tenta contemporizar, pois não tem dinheiro e Basílio a deixa à mercê da empregada, resolvendo partir.
            Para ganhar tempo, Luísa se obriga a ceder. Pouco a pouco torna-se uma verdadeira presa nas mãos de Juliana. É obrigada a fazer todo tipo de concessão e a presentear e favorecer a chantagista, além de ter que dar conta do serviço doméstico, que a criada desmazela, para que Jorge de nada desconfie. Sua situação fica insustentável. Jorge retorna do Alentejo e estranha bastante o comportamento da esposa, surpreendendo-a várias vezes fazendo o serviço de Juliana, apesar da fraqueza crescente e evidente, com o que não se conforma. Luísa, desesperada, procura o amigo Sebastião e pede-lhe ajuda. Sebastião pressiona Juliana e recupera as cartas comprometedoras. A criada morre de uma cardiopatia. Luísa fica doente em seguida, emocionalmente exausta.
            Um dia chega uma carta de Basílio para Luísa, ainda doente, que Jorge se dá a liberdade de ler - afinal, era correspondência de um famíliar dela e podia ser urgente! - tomando conhecimento das relações entre a esposa e Basílio. Convalescente, a moça tem uma recaída, quando Jorge a confronta com a prova da sua traição. Com o novo choque acaba entrando em estado irrecuperável, morrendo logo depois.
V- Personagens

            Jorge – engenheiro, casa-se com Luísa para organizar a vida, bastante desregrada, após a morte da mãe;
            Luísa – realizou o desejo da mulher solteira: casou-se; é fútil e ociosa; lê obsessivamente romances românticos, pelos quais se deixa influenciar;
            Basílio – o primo, título do romance; ex-namorado de Luísa, retorna a Portugal, vindo do Brasil, onde refez sua fortuna; vive entre pretensos negócios e aventuras;
            Juliana – personagem complexa; infância infeliz, filha de uma engomadeira – serviço em que se especializa, e de um degredado; trabalha desde muito jovem, nada conquistou; Muito feia, acabou solteira por esse motivo; quando a mãe morreu, ficou só no mundo; mulher doente, pragueja constantemente; revoltada, todo o tempo planeja vingar-se de tudo e todos, especialmente das patroas, a quem invariavelmente detesta;
            Julião – parente afastado de Jorge, médico mal sucedido, amargo, invejoso;
            D. Felicidade – a fidalga mal amada, de meia idade, recalcada e roliça, falante e doente de dispepsia e flatulência. Nutre paixão pelo Conselheiro, que a evita;
            Conselheiro Acácio – homem sério e exageradamente cerimonioso, encarna artifícios sociais; sempre pronto a fazer um discurso oficial a favor da família, da pátria e da moral. Hipócrita, vive com sua concubina. Representa o ‘status quo’ ao qual Eça dá combate.
            Ernestinho Ledesma - escritor romântico e representante da pior literatura, que começa a fazer muito sucesso com “Honra e Paixão”, peça em que o marido mata a mulher, que ama o conde de Monte Redondo. O final trágico, preconizado pelo autor, serve de oportunidade para que o narrador exponha o pensamento de Jorge, antes de se tornar ele mesmo um marido traído. Já o final feliz, o perdão, exigido pelo empresário que produz o espetáculo, acaba sendo o responsável pelo sucesso da peça, que fica, assim, dentro dos moldes do gosto da burguesia da época;
            Sebastião – o bom amigo de todos, primeiramente de Jorge e depois também de Luísa. É um bom homem. Cabe a ele a tarefa de impedir Juliana de continuar a chantagem;
            Leopoldina – amiga de muitos anos de Luísa, que está proibida por Jorge de a receber; é conhecida na cidade por ser casada e colecionar amantes; o último é um poeta.


Nenhum comentário:

Postar um comentário